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Grande reportagem

Os últimos navegadores do Rio São Francisco

Uma viagem de seis dias com os barqueiros que ainda cruzam o Velho Chico entre Pernambuco e Bahia.

No cais de Piranhas, em Alagoas, o rio São Francisco corre devagar. As águas baixaram nos últimos vinte anos, mas o rio segue navegável entre esta cidade e Xingó, num trecho de 60 quilômetros que atravessa cânion e memória.

Otávio Brandão embarcou com Raimundo, 64 anos, barqueiro há quarenta. A viagem de ida leva seis horas; a de volta, oito, porque o rio é longo e o motor é antigo. No caminho, param em quatro comunidades ribeirinhas que não têm estrada.

“Antes tinha oito barcos. Hoje sou eu e o Ivan”, diz Raimundo, enquanto enche o tanque com um funil de plástico. O serviço não dá mais para viver; ele complementa com pesca e transporte eventual de turistas.

O cânion de Xingó é bonito de doer. Parede de pedra vermelha de 200 metros dos dois lados, águas verdes, silêncio que pesa. Há semanas em que Raimundo não cruza com outra embarcação. “Vazio é o rio, não a vista”, resume.

Nas comunidades, a vida se organiza em torno do barco. Sem ele, não há mercadoria, nem remédio, nem escola para as crianças acima de dez anos — que precisam ir para Piranhas estudar.

Os mais novos não querem aprender o ofício. Dos quatro jovens da comunidade de Entremontes, três migraram para Maceió; o quarto trabalha como guia de turismo na temporada. O barco de carga passa de geração em geração — e essa corrente está se rompendo.

Há um projeto federal de subsídio ao transporte ribeirinho, parado há dois anos por falta de licitação. Sem ele, Raimundo calcula que para em doze meses. “O rio não acaba. Acaba quem navega”, diz.

Descemos no pôr do sol. O motor bateu a manhã toda, agora cala. Raimundo deixou a embarcação deslizar. “É o melhor momento”, disse. Ninguém discordou. O São Francisco, lento e enorme, levou a gente.

Otávio Brandão
Otávio Brandão

repórter. Especializado em reportagens longas sobre o interior do Nordeste brasileiro.

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